sexta-feira, 24 de junho de 2011

Atominação

             Não temos tanto tempo de vida se descontarmos todas as horas mórbidas. Não somos nada além de átomos e imaginação. Não somos nada. Alienação é relativo, ela sempre fala de alienação quando estamos falando alto. Acho que alienado é quem ouve tudo que toca no rádio, assiste TV inútil e absorve todo tipo de cultura inútil, desnecessária, que não serve nem para forrar as gavetas do cérebro. Inteligência não é passar no vestibular. Minha memória é péssima e eu vivo tendo problemas por causa disso.  Meu agnosticismo não permite que eu veja as pessoas como mais do que átomos e imaginação. Mas eu ainda sinto. Sentimentos são as coisas mais simples e mais complexas de todas; ninguém vê, mas todo mundo sabe exatamente como é, e eu odeio saber como é. Não temos tanto tempo de vida se descontarmos as horas
apaixonadas
bêbadas
mórbidas
e todos os dias
e noites
sem luas e sóis
e vênus
que não pode acenar
e falta de dinheiro
e vinho em excesso
“mas não vou me sujar
fumando apenas um cigarro”
e sem ser completo
sem se machucar
sem sangrar pelos olhos
e sem usar colírios à noite
e sem amar a noite...
a noite...
Queria que sempre fosse noite.
Noite em excesso
(vermelho como os teus olhos)
Macio
(sujo como seus cabelos)
E entorpecente
(maravilhoso como teu sorriso)
Em excesso.
             Eu também trocaria qualquer garota pela Lua. Prefiro números ímpares, mas não gosto de números, no geral. Gosto mais de letras, muito mais. Toda vez que me encontro no mais escuro dos becos do fundo da minha mente, me renasce a certeza de que a vida não tem sentido. As folhas caindo não têm sentido, ou tanto quanto o barulho dos ponteiros do relógio. Desespero.
             Prefiro os copos de dentro do meu quarto e as garrafas de vinho barato nos bares mal cheirosos. Me diga: a que distância fica o céu do inferno? A que distância fica o amor do ódio?

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